Estabelecimentos investem em gastronomia, aulas de dança e ambientação para oferecer uma experiência completa ao público
Em diferentes regiões do Brasil, bares especializados em forró têm investido em uma experiência que vai além da programação musical para atrair e fidelizar clientes. Ambientação temática e gastronomia nordestina compõem a estratégia dos estabelecimentos, que transformam a tradição do forró em um diferencial competitivo no setor de alimentação fora do lar.
Segundo a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), investir em experiências temáticas e na valorização da identidade do negócio é uma estratégia cada vez mais utilizada por estabelecimentos que buscam fortalecer o relacionamento com o público.
Paixão pelo forró sustenta negócios de longa trajetória
Em São Paulo, o Canto da Ema oferece há 25 anos uma experiência tipicamente nordestina de forró. Com uma ambientação que faz referência à cultura do Nordeste, a casa tem em sua decoração tecidos de chitão e peças artesanais. No cardápio, há a oferta de pratos como baião de dois, escondidinho e tapioca.
Paulo Rosa, produtor musical, conta que a motivação para criar a casa sempre esteve ligada à valorização do gênero musical. "O forró, mais do que um grande negócio para a gente, é uma grande paixão. O resultado sempre ficou em segundo plano. Primeiro, sempre foi fazer forró direito", afirma.
A casa promove, ainda, aulas de dança em dias em que não há movimento de vendas, o que abre as portas para novos frequentadores. Segundo Paulo, esse aspecto social é um dos grandes diferenciais do forró. "As pessoas vão muito para conhecer outras pessoas. O forró permite isso, porque basta convidar alguém para dançar. Existe uma aproximação muito natural, sempre com respeito, e isso acaba criando um ambiente bastante acolhedor."
Em Recife/PE, a Sala de Reboco segue a mesma proposta de valorização cultural. Inspirado na música "Sala de Reboco", de Zé Marcolino e Luiz Gonzaga, o espaço reproduz características das tradicionais casas do interior nordestino.
Há 27 anos dedicada exclusivamente ao ritmo nordestino, a casa mantém apresentações às sextas-feiras, sábados e domingos. "Eu mantenho na raça. Antigamente era mais fácil lançar novos nomes. Hoje, quando a gente traz um artista consagrado, a casa lota. Quando se aposta em alguém que ainda está começando, a situação fica mais difícil", relata o proprietário, Rinaldo Ferraz.
]O empresário conta que a paixão pelo estilo musical é o que mantém a casa viva. Além disso, Rinaldo enxerga o forró como um importante agente na vida de muitos clientes. "Recebo pessoas que dizem que estavam enfrentando problemas de depressão e vieram para dançar. A dança ajuda muito. Além disso, existe a oportunidade de conhecer pessoas e viver uma cultura que conta a história do Nordeste."
Criatividade ajuda a ampliar o público
Como o forró reúne um público fiel, mas relativamente restrito, os empresários investem em diferentes estratégias para manter o interesse dos frequentadores e atrair novos clientes.
No Canto da Ema, uma das iniciativas é convidar artistas de outros estilos musicais que tenham afinidade com o forró. O espaço realiza eventos voltados para diferentes públicos, incluindo apresentações destinadas à comunidade LGBTQIAPN+, ampliando a diversidade entre os frequentadores. Paulo Rosa destaca que outro desafio está na renovação do público e dos próprios artistas. "Os artistas também se renovaram muito pouco. Isso dificulta criar uma identificação com as novas gerações."
Na Sala de Reboco, além da divulgação pelas redes sociais, parcerias com empresas de turismo ajudam a atrair visitantes interessados em conhecer espaços tradicionais de forró durante viagens ao Nordeste. O estabelecimento transmite parte das apresentações ao vivo pelo Instagram e pelo YouTube como forma de fortalecer o relacionamento com o público e despertar o interesse de novos visitantes.
São João amplia visibilidade do forró
As festas de São João e o período junino também despertam o interesse de novos públicos. Em Recife, a temporada atrai turistas de diversas partes do país. "Nessa época, rockeiro, pagodeiro, todo mundo vira forrozeiro", brinca Rinaldo Ferraz.
Já em São Paulo, Paulo Rosa explica que o período também aumenta a concorrência por artistas e pela atenção do público, já que clubes, escolas, quermesses e eventos temporários passam a oferecer atrações ligadas ao universo junino.
Mesmo diante desses desafios, os empresários acreditam que a principal força das casas de forró está na experiência proporcionada aos clientes. Ao reunir música, dança, gastronomia e convivência em um mesmo ambiente, esses estabelecimentos mostram como a valorização da cultura regional pode fortalecer a identidade do negócio, fidelizar consumidores e transformar um segmento de nicho em uma oportunidade para o setor de alimentação fora do lar.




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